Coaching na Educação: Contexto, Aplicação e Possibilidades para Professores

Coaching na Educação: Contexto, Aplicação e Possibilidades para Professores
dezembro 10 11:18 2015 Imprimir Este artigo

Coaching na Educação: Contexto, Aplicação e Possibilidades para Professores e Gestores Educacionais

Graça Santos

Pedagoga/Coaching Educacional

Recebi um poderoso desafio do Portal Rioeduca.net, a maior rede de educação municipal da América Latina:  Escrever um artigo esclarecendo como o Coaching potencializa as ações dos  professores e gestores educacionais na escola de educação básica. Desafio aceito! Isto significa colocar o professor como ator principal no processo de potencialização de desenvolvimento de competências docentes. O processo de coaching instiga o docente e o gestor a viver a sua melhor versão, utilizando ferramentas e técnicas que os colocam como sujeitos do próprio aprendizado. Entre outros benefícios destaca-se o desenvolvimento e aplicação de técnicas de ensino e aprendizagem, o aperfeiçoamento e potencialização de pontos fortes, além de buscar por aprofundamento no conhecimento sobre processos cognitivos humanos.

Vamos lá, desafio aceito!

“Uma das coisas que aprendi nestes quase 40 anos na teia educacional é que quando o professor entra na sala de aula e fecha a porta, não importa quem seja o secretário de educação ou qual seja o currículo. Na hora de dar aula, ele vai acabar fazendo o que preferir. A tarefa, então, é fazer com que ele se sinta envolvido para que faça o que gostaríamos que fizesse. No final, tudo depende dele”, afirma Eric Nadelstern, ao explicar por que a Reforma de Nova York se preocupou em criar sistemas de apoio presencial ao professor em sala de aula. O sistema ainda está longe de ter conseguido envolver a maioria de seus professores. Mas, de fato, a figura do professor coach – se tornou presente na vida de cada escola pública da cidade.

O Professor Coach desenvolve estratégias específicas para as necessidades e pontos fortes de cada escola. Ao mesmo tempo, há estratégias que perpassam diferentes profissionais e organizações que oferecem esse tipo de apoio.

Na medida em que o desafio da qualidade passa a ocupar espaço crescente no debate público sobre educação no Brasil, torna-se importante investigar experiências, dentro e fora do País, que tragam propostas concretas e aprendizados sobre como superar os problemas institucionais da educação. Objetivando contribuir neste esforço a Fundação Itaú Social e o Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, iniciou, em 2009, o Programa Excelência em Gestão Educacional, que tinha como uma de suas colaborações a publicação de experiências educacionais que, com suas estratégias e ações, poderiam servir de inspiração para gestores, educadores, empresários e políticos brasileiros interessados em melhorar a qualidade de nossas escolas públicas. A publicação foi organizada em capítulos temáticos, selecionados de acordo com a relevância do tema para as mudanças do sistema de ensino de Nova York, e dentre eles, destaco aqui o tema Professores mentores e o apoio presencial ao professor em sala de aula: Coaching. Cada vez mais a ideia ganha força nas empresas e áreas do setor público, imprimindo sentido de formação de competências de um indivíduo ou uma equipe. Nos Estados Unidos, esta concepção tem sido amplamente utilizada nas escolas públicas como estratégia de melhoria da prática de diretores e de professores.

Já no Brasil há um consenso sobre a necessidade de formar melhor os professores da rede pública, seja quando ainda estão na universidade, seja depois, quando ingressam na carreira. Secretarias de Educação chegam a investir somas significativas em treinamentos, que em teoria, deveriam ajudar o professor a melhorar a sua prática em sala de aula. Entretanto, ainda há muito o que se fazer por aqui, embora a figura do coach, tão conhecida e aproveitada já pelas grandes empresas no Brasil, poderia se tornar uma política pública. Em Minas Gerais, algo próximo dessa realidade foi testado por meio do Programa de Intervenção Pedagógica, junto às séries iniciais da rede estadual. De maneira geral, o Coaching Educacional configura-se num campo ainda instintivo, e nos últimos anos, por força da mídia, e das redes sociais vem tomando uma certa desenvoltura estratégica, mas é bom ressaltar que muita gente confunde Coaching com Formação. Segundo João Alberto Catalão, este fato tem levado a que hoje a generalidade das ofertas formativas contemplem, um ou mais tópicos, sobre Coaching. Prossegue ainda, alertando que Coach não é um Formador ou Treinador, e que numa relação de Coaching, não é o Coach que ensina ou define os padrões do que está certo ou errado, ou avalia o que são bons ou maus níveis de desempenho. O Coach não ensina, ele facilita a tomada de consciência, a identificação do potencial, a obtenção do reforço da autoestima, a definição de objetivos, a elaboração e a monitorização de planos de ação para a performance do Coachee.

A ideia de um novo design no mundo da educação torna-se cada vez mais forte nos últimos anos, e cada vez mais claro que as instituições educacionais precisam ser recriadas, vitalizadas e renovadas de forma sustentável, adotando uma orientação aprendente, envolvendo todos do sistema, facilitando que cada um expresse suas aspirações, visando construir uma nova consciência do modelo mental desejado, e que ferramentas poderão utilizar para realizar a conexão motivada pela visão.

 

Possibilidades de Utilização do Coaching no meio educacional

O foco deste artigo é o despertar para um novo pensamento sistêmico, na forma de condução pedagógica por meio do Coaching Educacional, esclarecendo na prática como certas lógicas de raciocínio facilitam a ocorrência de sucessos no mundo educacional. No mundo de hoje, quem se propõe a educar precisa saber quais são as lógicas melhores de raciocínio, compreendendo que não adianta adotar modernos métodos de trabalho, se faltam bons princípios e ferramentas para a tomada assertiva de decisões.

Coaching Educacional, transforma o problema em objetivo, ampliando a capacidade coletiva de aprender, promovendo o ambiente corporativo educacional de forma criativa, empreendedora e inspiradora de novos conhecimentos, habilidades e atitudes, permeadas de valores humanos, fundamentadas pelas inteligências múltiplas e inteligência emocional, privilegiando as competências para ensinar e  educar profissionais autônomos reflexivos segundo Philippe Perrenoud, Donald A. Schön, Peter Senge, Edgar Morin, Ruy Cezar do Espírito Santo, Paulo Freire, Mirian Paura e Fritz Perls, entre tantos outros.

Diversas são as possibilidades pedagógicas desta poderosa estratégia que, inclusive, educa para a Paz, bem como para autonomia de pensamento, ação, reflexão e inovação.

Diante das inúmeras possibilidades, podemos destacar:

  1. Promoção de seminários, colóquios, workshops, grupos de estudos de sensibilização dirigidos a diferentes atores para conscientizar sobre o que realmente é Coaching Educacional, e quais são os benefícios para o cotidiano das relações intrapessoais e interpessoais da instituição educacional, associando-as, aos resultados acadêmicos;
  2. Abordagem específica para fortalecer a vontade das pessoas para o ato de aprender e apreender, levando-se em conta os estilos de aprendizagem, facilitando acertos para iniciar e continuar qualquer processo de mudança cultural;
  3. Fortalecimento da inteligência individual e coletiva por meio da potencialização de ações pedagógicas que levam a necessidade da cocriação de projetos coletivos, ampliando as possibilidades de comunicação assertiva, escuta ativa e o conceito da comunicação não violenta no gerenciamento de conflitos;
  4. Potencializando a (re)descoberta do autoconhecimento, descobrindo e desenvolvendo valores, compactuando com a família e a escola de educação básica a tarefa de formar humanos que se auto eduquem curiosos, capazes de enxergar e promover mudanças em si mesmos e no mundo;
  5. Promoção de espaços pedagógicos para discussão e aprendizagem que tenham como objetivos agir sobre como cada um raciocina, para que cada um, por si mesmo, possa concluir quais os melhores comportamentos. Assim, a pessoa ganha capacidade de ser autônomo, tornando-se consciente, alargando a sua capacidade de análise crítica, sendo aquele que se orienta mais pelo que deve fazer do que pelo que pode fazer.

Coaching Educacional está focado fundamentalmente na preocupação com um aluno vivo, inquieto, e participante, bem como um professor que não tema suas próprias dúvidas e com instituições educacionais abertas, vivas, postas no mundo e conscientes de que vivemos no século XXI, e que neste sentido é preciso repensar a postura acadêmica, comunicando e construindo assertivamente a urgência de se trabalhar com uma pessoa inteira, com sua afetividade, suas percepções, suas expressão, seus sentidos, sua crítica e criatividade. É preciso que se ande por outra rua, assim como nos inspira a poesia transcrita do livro Tibetano do Viver e do Morrer, “Autobiografia em cinco capítulos”.

  1. Ando pela rua.
    Há um buraco fundo na calçada.
    Eu caio…
    Estou perdido… Sem esperança.
    Não é culpa minha.
    Leva uma eternidade para encontrar a saída.
  2. Ando pela mesma rua.
    Há um buraco fundo na calçada.
    Mas finjo não vê-lo.
    Caio nele de novo.
    Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
    Mas não é culpa minha.
    Ainda assim leva um tempão para sair.
  1. Ando pela mesma rua.
    Há um buraco fundo na calçada.
    Vejo que ele ali está.
    Ainda assim caio… É um hábito.
    Meus olhos se abrem.
    Sei onde estou.
    É minha culpa.
    Saio imediatamente.
  1. Ando pela mesma rua.
    Há um buraco fundo na calçada.
    Dou a volta.
  1. Ando por outra rua.

Nessa perspectiva qual seria o estoque de atributos que os professores ou o gestores educacionais teriam que potencializar passando pelas sessões de coaching? E quais seriam as rotas de ação?

Uma possível rota é realizada em encontros coletivos onde o professor é situado como sujeito do próprio desenvolvimento e instigado a aperfeiçoar e expandir suas competências. Os encontros são associadas a uma rota de ação, uma vez que, o aprendizado proveniente do coaching precisa gerar ações. Os primeiros encontros envolvem uma avaliação das dimensões a seguir: motivação e autoconhecimento (motivação e continuidade de ação na direção dos objetivos desejados; autoconhecimento, utilização das forças, virtudes e talentos na docência; autoestima, autoconfiança e automotivação; equilíbrio emocional em situações adversas; resultados positivos mensuráveis na sua vida pessoal; resultados positivos mensuráveis da sua vida profissional; relacionamentos escolhidos e positivos; percepção de continuidade e melhoria contínua; poder de aprendizado e conclusões construtivas); atuação (proatividade; domínio de sala; atuação em conjunto com os outros docentes no processo de ensino; humildade e flexibilidade; conhecimento sobre as competências do aluno; foco do que realmente é importante na formação do aluno; capacidade de contextualização da sua disciplina; confiança transmitida aos alunos; exemplo de vida e de comportamento; formação acadêmica e publicações científicas); saber fazer (saber ouvir e respeitar o aluno; conhecimentos, habilidades e experiência na área lecionada); técnicas (oratória e comunicação; capacidade de se colocar no lugar do outro; uso de diferentes técnicas de ensino-aprendizagem; inovação e criatividade no ensino; minha didática atual; dinamismo da aula e motivação do aluno; capacidade de avaliar situações de aprendizagem); encantamento (inspiração e encantamento do aluno; capacidade de causar transformação no comportamento do aluno); e, responsabilidade (consciência da responsabilidade como docente; cumprimento de deveres e compromissos com pontualidade).

Outra rota possível é a realização de cursos livres para o desenvolvimento de temas tais como: Coaching e Programação Neurolinguística, Storytelling e Caixa de Ferramentas para engajamento e sensibilização de pessoas, Liderança, Endoquality, Inteligência Emocional e Orientação Profissional, Valores Humanos, Didática e IQPs – Indicadores de Qualidade de Projetos, que possam responder aos seguintes questionamentos: Como nos preparar para termos habilidade de, em momentos cruciais dispormos de presença de espírito para encontrar a saída e liderar outras pessoas que dependem da nossa iniciativa? Será que é possível nos soltarmos de todas as ideias e capacidades antigas que estão turvando o nosso julgamento, de modo a sermos capazes de identificar as mudanças necessárias, ajudar a promovê-las e obter reações positivas? Como fazer com que a evolução ocorra naturalmente, que as pessoas façam as coisas certas, sem ser preciso que sejam controladas, e desenvolvam as suas habilidades técnicas e humanas? Como descobrir o ponto de apoio para, através de uma causa minúscula, alavancar o início de uma mudança gigantesca? Como melhorar a nossa forma de pensar, que é a semente do todo?

No artigo apresentado, é possível que dois elementos mereçam amplo destaque e aprofundamento: o primeiro refere-se a necessidade dos professor e do gestor educacional ser sujeito do próprio aprendizado, e estar consciente que necessita melhorar a cada instante, e sempre com a pergunta em mente: Quem sou eu para educar? O segundo relaciona-se ao acompanhamento sistemático, apoiado e inspirado pelo processo de coaching e seus efeitos positivos na sala de aula e no desenvolvimento de todas as partes envolvidas.

Neste século XXI vamos cocriar por outras ruas? Este é o nosso desafio.

Para saber mais

SANTOS, Graça. Coaching Educacional: Ideias e estratégias para professores, pais e gestores que querem aumentar seu poder de persuasão e conhecimento. Editora Leader, São Paulo, 2012.

SCHÖN, D. Educando o profissional reflexivo. Um novo design para o ensino e a aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2000.

LAGES, Andreia. O’ CONNOR, Joseph. O que é Coaching. Comunidade Internacional de Coaching. Editora All Print, São Paulo, 2006.

GATTI, Bernadete A. e equipe. Atrativos da carreira docente no Brasil. Fundação Carlos Chagas, São Paulo, outubro, 2009.

CATALÃO, João Aberto. PENIN, Ana Tereza. Ferramentas de Coaching. Editora Lidel. São Paulo, 2012.

PERRENOUD, Philippe. 10 Novas Competências para Ensinar, Artmed, 2000.

____________, Philippe. As competências para ensinar no século XXI: a formação dos professores e o desafio da avaliação. Porto Alegre: Artmed, 2002.

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Sobre o Autor

Graça Santos
Graça Santos http://www.orientandoquemorienta.com.br

Professora da Rede Pública do Rio de Janeiro, Pedagoga, Orientadora Educacional, Escritora, Palestrante e Coach Educacional. Autora do livro “Coaching Educacional: Ideias e estratégias para professores, pais e gestores que querem aumentar seu poder de persuasão e conhecimento”. Coautora do livro PNL & Coaching, assinando o artigo “Como funciona seu GPS interno?” ambos publicados pela Editora Leader/SP. Autora do artigo do dossiê intitulado Coaching na Educação: contexto, aplicação e possibilidades publicado na Revista Digital Coaching Brasil. Coautora do livro Planejamento Estratégico para Vida publicado pela Editora SERMAIS/SP, assinando o capítulo “Você é o seu grande projeto?” Facilitadora das disciplinas que compõem o desenvolvimento das Habilidades Gerencias do MBA em Gerenciamento de Projetos e dos Cursos Livres do Instituto Heron Domingues/RJ. Tem como missão inspirar pessoas que querem sair do estado atual para o estado desejado por meio de vivências que conduzam ao realinhamento cultural das crenças, valores, hábitos e atitudes com foco na excelência dos resultados e na ecologia pessoal, por meio de encontros, workshops e palestras. Contatos www.orientandoquemorienta.com.br www.orientandoquemorienta.blogspot.com.br graca@orientandoquemorienta.com.br

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  1. prof Aloysio
    novembro 01, 15:21 #1 prof Aloysio

    Qual é a relação entre coaching e o conceito de scaffolding, que é apoiado na teoria de Vigotsky?

    Reply to this comment

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